Quarto 1407
Episódio 2
Episódio 2 · 4 min

Do outro lado

Ela bateu uma vez.

A segunda batida ficou presa no ar, a mão parada a dois centímetros da madeira. Do outro lado, a sombra dos pés não se mexeu.

— Uma só? — A voz dele veio abafada pela porta, divertida. — Isso quer dizer o quê?

— Que eu quero saber quem você é — Helena disse. — Mas não quero entrar.

Um silêncio. Depois um ruído de tecido, como se ele tivesse encostado as costas na porta e escorregado até o chão. Helena hesitou e fez o mesmo do lado de fora. O carpete era macio. O sensor de luz do corredor, sem movimento, apagou a lâmpada acima dela, e ela ficou no escuro, só com a linha amarela embaixo da porta e a voz dele chegando pela fresta.

— Justo — ele disse. — Pergunta.

— Qual é o seu nome de verdade?

— Essa é a única que eu não posso responder hoje.

— Então por que eu ainda estou aqui?

— Porque você também gosta de não saber.

Ela quis negar. Não negou. Ficou ouvindo a respiração dele através da madeira, tão perto que parecia encostada no próprio ombro.

— Outra — ele pediu.

— Por que sempre o 1407?

Desta vez o silêncio foi mais longo. Quando ele voltou a falar, a voz tinha perdido a graça.

— Porque há vinte e oito anos uma mulher passou uma semana inteira neste quarto. Ela chegava às sextas, às 23h40, e assinava a ficha com um nome diferente a cada vez. Ninguém nunca soube quem ela era. Na última sexta, ela deixou um bebê dormindo numa cesta em cima dessa cama e foi embora pela escada de incêndio.

Helena sentiu o frio do corredor subir pelas costas.

— O bebê era você.

— O bebê era eu.

— E você voltou para descobrir quem ela era.

— Eu voltei porque um dia achei, numa caixa de documentos do orfanato, uma página arrancada do livro de registros deste hotel. A letra dela. — Ele fez uma pausa. — É parecida com a minha, sabia? Eu treinei.

Helena fechou os olhos. Pensou no livro de registros trancado na gaveta lá embaixo, nas fichas antigas que ninguém nunca jogava fora, guardadas no arquivo morto do subsolo, em caixas de papelão com anos escritos à mão. Pensou que bastaria uma chave para descer até lá. Pensou que ela tinha essa chave.

— Por que trocar de nome toda sexta?

— Para ver se alguém do hotel percebia. Quem percebesse, eu imaginei, seria alguém que presta atenção. — Ele riu baixinho. — Demorou quatro semanas. Mas você percebeu.

— Você me escolheu.

— Você se escolheu, Helena. Eu só deixei um livro no balcão.

Ela se levantou. O sensor acendeu a luz de novo, e por um instante ela se viu refletida no número dourado da porta: o cabelo preso de qualquer jeito, o uniforme amassado, a boca entreaberta como quem está prestes a dizer uma coisa que não devia.

— Abre a porta — ela disse.

— Você disse que não queria entrar.

— Eu não vou entrar. Abre.

A fechadura girou. A porta se abriu só o bastante para uma fresta de luz, e ele apareceu nela: camisa branca aberta no colarinho, os pés descalços, o cabelo bagunçado de quem tinha passado a noite deitado no chão conversando com uma porta. Ficaram um de cada lado do batente, a linha do corredor entre eles como uma regra que ninguém tinha escrito.

Ele não tentou puxá-la. Só olhou. Um olhar demorado, que desceu do rosto dela até a plaquinha dourada no peito e voltou devagar.

— Agora você sabe por que eu venho — ele disse. — Falta saber por que você subiu.

Helena deu meio passo à frente. A ponta do sapato dela encostou na soleira. O rosto dele estava tão perto que ela sentiu o cheiro da camisa, sabonete de hotel e alguma coisa mais quente por baixo.

— Eu subi — ela disse, quase sem voz — porque sei onde ficam as fichas de vinte e oito anos atrás.

Os olhos dele mudaram. Ela viu acontecer: a graça indo embora, a esperança chegando, assustada, como um bicho que não sabe se pode sair da toca.

— Você faria isso?

— Na sexta que vem — ela disse. — Às 23h40. Com o seu nome de verdade na ficha.

Ela recuou antes que ele pudesse responder. O sensor apagou a luz atrás dela enquanto ela caminhava até o elevador de serviço, e ela não olhou para trás, porque sabia que, se olhasse, voltaria.

Lá embaixo, o saguão continuava vazio. A plaquinha "Volto em 5 minutos" estava no balcão. Helena tirou a plaquinha, sentou, respirou.

Só então percebeu que o livro de registros estava aberto em cima do balcão.

Ela tinha certeza de que tinha deixado trancado na gaveta.

Aberto na página daquela noite. E, logo abaixo de "Gabriel Lins, 1407, 23h40", alguém tinha escrito com outra letra, uma letra torta, apressada, quase infantil:

"Ele está mentindo para você."

E agora?! Bora pro próximo!
TCHAN!
Fim do episódio 2. O 3º já está esperando.