Quarto 1407
Episódio 3
Episódio 3 · 4 min

A letra torta

Helena passou a semana inteira olhando para aquela letra torta.

Mostrou o livro ao mensageiro da noite. O menino jurou que não tinha saído da cadeira. Mostrou ao porteiro, que só deu de ombros. Não mostrou ao gerente. Mostrar ao gerente seria explicar por que ela tinha deixado o balcão vazio às duas da manhã, e por que tinha subido ao décimo quarto andar, e por que ainda sentia, quatro dias depois, o cheiro de sabonete de hotel quando fechava os olhos.

Na terça, ela desceu ao arquivo morto.

O subsolo do Hotel Araucária era um corredor comprido de concreto, com lâmpadas penduradas por fios e prateleiras de metal cheias de caixas de papelão. Cada caixa tinha um ano escrito à mão com pincel atômico. Ela achou a de vinte e oito anos atrás no fundo, embaixo de outras duas, com o canto roído por alguma coisa que ela preferiu não imaginar.

Dentro, as fichas de hóspedes estavam presas com elásticos podres que se desfaziam ao toque. Helena sentou no chão frio e foi passando uma por uma, procurando sextas-feiras, procurando o 1407, procurando a letra bonita que ele dizia ter treinado.

Achou.

Quatro fichas. Quatro sextas seguidas. Quatro nomes diferentes de mulher: Clara Amaral, Beatriz Soares, Irene Duarte, Lúcia Moreau. Todas no 1407. Todas às 23h40.

Mas a letra não era bonita.

Era torta. Apressada. Quase infantil.

Helena ficou um tempo sem respirar. Tirou o celular do bolso, fotografou as quatro fichas, guardou tudo de volta na caixa e subiu as escadas do subsolo com as pernas moles.

Lúcia Moreau. Na primeira sexta, ele tinha assinado Daniel Moreau.

Na sexta-feira, às 23h40, a porta giratória se moveu.

Ele vinha sem a mala de couro desta vez. Só o terno escuro, o cabelo molhado da garoa e um envelope pardo na mão. Parou na frente do balcão e, antes de qualquer boa-noite, puxou a ficha e escreveu. Helena não olhou o nome. Olhou para ele.

— Você foi ao arquivo — ele disse.

— Como você sabe?

— Porque você está me olhando como quem já sabe alguma coisa que eu não sei.

Ela virou o celular para ele. As quatro fichas. A letra torta.

Ele ficou muito tempo olhando a tela. Ela viu o maxilar dele travar, os dedos apertarem a borda do balcão.

— Não é a letra que eu achei no orfanato — ele disse, baixo.

— Não. É a letra que alguém escreveu no meu livro de registros, na noite em que eu subi. Debaixo do seu nome. — Helena respirou. — "Ele está mentindo para você."

Ele levantou os olhos devagar. Pela primeira vez desde que ela o conhecia, não havia graça nenhuma neles. Só um cansaço antigo e uma coisa parecida com medo.

— Helena — ele disse —, eu nunca menti sobre o bebê. Nem sobre o quarto. Nem sobre você.

— Então o que é isso?

Ele empurrou o envelope pardo pelo balcão. Dentro, uma certidão de nascimento amarelada. Filho de mãe desconhecida. Registrado pelo orfanato. Nome dado pelas freiras: Gabriel.

— Esse é o meu nome de verdade — ele disse. — O único que eu tenho. Eu escrevi na ficha hoje, como você pediu.

Helena olhou a ficha. Gabriel. Sem sobrenome. A letra bonita, treinada, de quem passou a vida inteira tentando imitar uma mãe que nunca conheceu, copiando a letra errada.

Ela contornou o balcão. Não pensou. Parou na frente dele, perto o bastante para sentir a garoa ainda fria no tecido do terno, e pôs a mão no peito dele, bem em cima do coração, como quem confere se uma coisa é real.

— Então alguém neste hotel sabe quem ela era — Helena disse. — E não quer que você descubra.

Ele cobriu a mão dela com a dele. O polegar fez um caminho lento pelo pulso dela, e Helena sentiu cada centímetro desse caminho.

— Sobe comigo — ele pediu. — Não para entrar. Só para não ficar sozinho com isso.

Ela ia responder. Já sabia o que ia responder.

O telefone da recepção tocou.

Os dois olharam para o aparelho ao mesmo tempo. Linha externa. Uma da manhã. Ninguém liga para a recepção de um hotel à uma da manhã. Helena atendeu sem soltar a mão dele.

— Hotel Araucária, boa noite.

— Boa noite — disse uma voz de mulher, rouca, calma, com uma letra torta escondida em cada sílaba. — Eu gostaria de reservar o 1407 para a próxima sexta-feira. Às 23h40.

Helena sentiu o sangue sumir do rosto.

— Em nome de quem? — conseguiu perguntar.

Do outro lado, a mulher sorriu. Dava para ouvir o sorriso.

— Diz para o meu filho que é em nome de Lúcia.

A linha caiu.

Gabriel estava olhando para ela. Helena não sabia como contar. Não sabia nem se devia. Pela porta giratória, a garoa engrossava sobre a rua vazia, e do outro lado da calçada, debaixo do toldo fechado da padaria, havia uma mulher de capa escura, parada, olhando para dentro do saguão.

Quando Helena piscou, ela não estava mais lá.

Acabou… por enquanto!
FIM!
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