A Voz da MadrugadaEpisódio 2
Ao vivo
Lia ligou para a rádio às 3h01 da noite seguinte.
Tinha passado o dia inteiro sem dormir, olhando o envelope azul em cima da mesa da cozinha, lendo e relendo a letra inclinada. Tinha ido à rádio de tarde, um prédio baixo e descascado no São Francisco, e o porteiro tinha dito que não, ninguém via o Bento, ele entrava pelos fundos e saía pelos fundos, e não, não guardavam os envelopes, e não, moça, não tinha câmera na portaria desde 2019.
Então ela ligou. O número do programa estava escrito em adesivo no radinho prateado desde sempre, e ela nunca tinha discado. A linha chamou três vezes.
— Madrugada, boa noite.
Era ele. Ao vivo. Ela ouvia a voz no fone do ouvido esquerdo e no celular encostado no direito ao mesmo tempo, com um atraso de meio segundo, como um eco dentro da própria cabeça.
— Boa noite — ela disse, e a voz saiu mais fraca do que ela queria. — Eu sou a moça do plantão.
Do outro lado, um silêncio que durou exatamente o tempo de uma respiração.
— Você está no ar — ele avisou, baixo. — Quer que eu tire?
— Não.
Ela não sabia por que tinha dito não. Talvez porque, no ar, ele não pudesse mentir. Talvez porque milhares de pessoas acordadas na cidade fossem testemunhas. Talvez porque ela quisesse que quem tinha escrito aquela carta estivesse ouvindo.
— Então fala comigo — ele disse. — Como você está?
— Com medo.
— De quem?
— De quem me vê. — Lia apertou o celular contra a orelha. — Foi você?
Ele riu, um riso curto e rouco que ela sentiu descer pela nuca até o meio das costas.
— Eu só leio as cartas. Eu não escrevo.
— Você sabia da janela. Do frio na ala B.
— Eu sei de muita coisa às três da manhã. — A voz dele ficou mais baixa, mais perto do microfone, e Lia fechou os olhos sem querer. — Sei que tem gente que trabalha a noite inteira cuidando de estranhos e chega em casa quando o sol nasce sem ninguém para cuidar dela. Sei que essa gente às vezes liga para uma rádio às três da manhã porque é o único lugar onde tem alguém acordado do outro lado.
— Não é por isso que eu liguei.
— Eu sei.
O monitor do quarto 9 bipou no fim do corredor. Lia abriu os olhos. A Rosana dormia na cadeira. O corredor estava vazio, a porta do quarto 11 fechada, do jeito que ela tinha deixado.
— Como é a sua cara? — ela perguntou.
Ele demorou a responder.
— Pior do que a voz.
— Isso é impossível.
— Você não sabe disso.
— Eu sei que você fala como alguém que lê uma carta duas vezes.
O silêncio do outro lado mudou de qualidade. Ela ouviu, através do fone e do celular, o barulho de um papel sendo desdobrado.
— Chegou outra carta — ele disse. — Hoje à tarde. Envelope azul. Você quer que eu leia, ou quer desligar primeiro?
Lia apertou o polegar em cima da cicatriz em forma de meia-lua.
— Lê.
Ele pigarreou. A voz voltou a ser a voz do programa, devagar, encostada.
— "Para a moça do plantão, que me ligou às 3h01." — Uma pausa. — Ela escreveu isso à tarde, Lia. Antes de você ligar.
Lia sentiu o corredor girar um pouco.
— Continua.
— "Eu sabia que você ia ligar. Você é corajosa assim, mesmo com medo. Talvez por causa do medo. Agora que você está ouvindo com os dois ouvidos, eu posso te contar a primeira coisa verdadeira. Eu não sou quem você pensa. Eu não sou o homem da voz."
O Bento parou de ler.
Ficou em silêncio no ar. Três segundos. Cinco. Na rádio, silêncio é a coisa mais assustadora que existe. Lia ouviu o próprio coração no ouvido esquerdo.
— Bento?
— Desculpa. — A voz dele tinha mudado. Estava menos firme. — Essa parte eu não tinha lido antes.
— Continua — ela pediu.
— "Eu não sou o homem da voz. Mas ele também te vê. Ele só não sabe que eu sei. Amanhã, às três, no elevador da ala B, um de nós dois vai estar te esperando. Você vai ter que descobrir qual. Dica: só um de nós sabe a letra certa da música."
O Bento dobrou o papel. Dava para ouvir.
— Lia — ele disse, e era a primeira vez que dizia o nome dela no ar. Ela nunca tinha dito o próprio nome. — Não vai ao elevador amanhã.
— Como você sabe meu nome?
Ele não respondeu. A linha ficou muda por um segundo, e depois o programa foi para os comerciais, uma voz animada anunciando uma loja de colchões no Portão.
Lia ficou parada no posto de enfermagem com o celular na mão.
No fim do corredor, o elevador da ala B estava parado no andar. Portas abertas. Luz acesa. Vazio. Ela não tinha ouvido ninguém chamar o elevador.
Dentro, no espelho do fundo, alguém tinha escrito com o dedo no vapor, em letra inclinada para a direita, como quem escreve numa janela de inverno:
"Sonhos não envelhecem."
As portas se fecharam sozinhas, e o elevador desceu.