Contrato de Três Meses
Episódio 2
Episódio 2 · 5 min

O apartamento de vidro

O apartamento de Caio Bastos era todo de vidro.

Paredes de vidro, guarda-corpo de vidro, uma mesa de vidro na sala onde nada parecia ter sido usado. Do décimo oitavo andar, Curitiba inteira se espalhava lá embaixo, e Marina, parada na porta com duas malas e a caixa de papelão onde tinha posto o moedor manual do avô, teve a impressão de estar entrando num aquário.

— Dá para ver tudo daqui — ela disse.

— E de lá não dá para ver nada — ele respondeu, pegando as malas. — Película espelhada. Ninguém vê quem está dentro.

Ele mostrou o quarto de hóspedes. Tinha chave, como prometido. Tinha uma cama larga, lençóis brancos, uma janela enorme e uma cafeteira de cápsula sobre a cômoda, que Marina olhou como quem olha um insulto.

— Eu trouxe a minha — ela disse, batendo na caixa de papelão.

— Eu imaginei.

Na primeira semana, eles quase não se viram. Caio saía às seis e voltava às dez. Marina passava o dia na torrefação, tentando convencer fornecedores de que o banco não ia fechar as portas, e voltava ao aquário de vidro para jantar sozinha. Às vezes ouvia a porta do escritório dele abrir e fechar no meio da noite. Às vezes ouvia música baixa, um jazz antigo, saindo por baixo da porta. Nunca batia. Ele também não.

Um metro. Cordial.

Foi na segunda quinta-feira que ela não conseguiu dormir.

Desceu para a cozinha às duas da manhã, descalça, com uma camiseta velha da torrefação que ia até o meio das coxas, e montou o moedor do avô no balcão de mármore preto. Moeu o grão devagar, como ele tinha ensinado quando ela tinha oito anos. Ferveu a água. Esperou a temperatura certa. O cheiro subiu pela cozinha escura como uma lembrança.

— Isso é ilegal a essa hora.

Ela quase derrubou a chaleira. Caio estava encostado no batente da porta, de calça de moletom cinza e sem camisa, o cabelo amassado de travesseiro. Ela nunca o tinha visto sem terno. Parecia outra pessoa. Parecia mais novo, e mais perigoso.

— Desculpa — ela disse. — Te acordei?

— Eu não estava dormindo.

Ele se aproximou do balcão. Parou do outro lado, longe o bastante para respeitar o metro, perto o bastante para ela sentir o calor que vinha dele no ar frio da cozinha.

— Coado no pano? — ele perguntou.

— No pano. Como meu avô fazia.

— Com uma pitada de canela no pó antes de passar a água — ele disse. — E o açúcar na água, não na xícara.

Marina parou com a chaleira no ar.

— Como você sabe disso?

Ele não respondeu de imediato. Pegou duas xícaras no armário, as únicas de louça na casa inteira de vidro, xícaras brancas com uma borda azul desbotada, e pôs no balcão entre eles.

— Porque eu tomei esse café — ele disse. — Há dez anos. No balcão da torrefação, na Rua Riachuelo. Seu avô fez para mim. Eu tinha vinte e quatro anos, nenhum dinheiro e uma ideia de rede de cafeterias que todo banco tinha recusado. Ele me ouviu falar por duas horas. No final, me deu um saco de grãos e disse: "Começa com o melhor café que você conseguir, menino. O resto vem."

Marina pôs a chaleira no fogão. Precisava das mãos livres. Precisava se segurar em alguma coisa.

— Ele nunca me contou isso.

— Ele me pediu para não contar. — Caio olhou para ela. — Você estava lá naquele dia. Atrás do balcão. Com o cabelo preso com um lápis e uma mancha de pó de café na bochecha. Você me serviu e nem olhou para mim.

— Eu não lembro.

— Eu sei. — Ele sorriu, um sorriso cansado, sem defesa. — Eu lembro.

Marina coou o café. As mãos tremiam um pouco. Serviu as duas xícaras, empurrou uma para ele pelo mármore. Os dedos dele tocaram os dela ao pegar a xícara, e desta vez nenhum dos dois soltou primeiro.

— Caio — ela disse. — Por que você quer comprar a torrefação?

— Eu não quero comprar.

— O jornal disse...

— O jornal disse o que os meus consultores mandaram dizer. — Ele largou a xícara. Contornou o balcão. Um passo. Dois. O metro acabou. — Eu quero que ela continue existindo. Eu quero pagar a dívida que eu tenho com ele. E eu queria, Marina, há dez anos, que você olhasse para mim uma vez.

Ela estava encostada na bancada da pia. Ele estava parado na frente dela, perto demais, as mãos apoiadas no mármore dos dois lados, sem tocar. A respiração dele no cabelo dela. O cheiro do café entre eles.

— Ambiente privado — ela sussurrou.

— Eu sei.

— Cláusula sete.

— Eu sei. — Ele não se mexeu. — Me pede para ir embora.

Marina levantou a mão. Pôs no peito dele. Sentiu o coração dele batendo forte, rápido, debaixo da palma. Abriu a boca para pedir que ele fosse embora.

O celular dele vibrou sobre o mármore.

Os dois olharam para a tela acesa. Uma mensagem de um número sem nome, com uma foto anexada. Caio pegou o celular, abriu, e Marina viu o rosto dele mudar. Ficar branco.

Ele virou a tela para ela.

Era uma foto tirada de fora do prédio, de longe, com zoom. Mostrava a cozinha. Mostrava os dois, naquele exato momento, ela encostada na pia, ele com as mãos no mármore.

A película espelhada não estava funcionando.

Embaixo da foto, uma mensagem:

"Bonito o noivado de vocês. Pena que o banco vai receber a cópia do contrato verdadeiro amanhã às nove."

E agora?! Bora pro próximo!
TCHAN!
Fim do episódio 2. O 3º já está esperando.